De há muito estamos em busca de compreender. Outros procuram o sentir. Ambas as buscas anseiam por entendimento. A predisposição para a narrativa, para algo parecido com o que Aristoteles chamou de mimesis, parece inerente ao humano. A reconstrução do enredo de como teria sido ou é. A interpretação da vida em ação. E, à partir daí, evidentemente, tudo é possível. Nada saberíamos do passado se não fosse esta capacidade humana de contar a história ( inclusive sendo o sujeito da própria). Uma vez mais Humberto Maturana e Ximena Dávilla vem a mente: tudo o que é observado é observado por alguém. Tudo o que é dito, é dito por alguém. Um outro alguém, pode, portanto, observar algo distinto e contar uma história muito diferente daquela que estiver sendo favorecida (a chamada situação). Acrescentando-se aí o efeito halo, e pronto, temos heróis e anti-heróis construídos à nossa vontade e gosto ou preferência (e pequenas vinganças). Constroem-se marcas de Caín com o diligente auxilio da tecnologia da noite para o dia. O pessoal da mídia entende bem desse contexto. E o das organizações, particularmente naquelas onde o jogo e os interesses políticos vivem à flor da pele também o sabem. Nem sempre o identificam, desconhecem a teoria, mas a praticam com empenho e espantosa crueldade. Sendo a narrativa o elemento formador do entendimento coletivo, da identidade de um povo, de uma nação, podemos imaginar o efeito que boas histórias acerca do como somos o que ficamos, e o que a escassez de boas narrativas pode fazer por uma sociedade, seus valores e sua cultura. Somos miméticos, ponto. Essa dimensão interpretativa é o que impele, obriga até, ao permante estudo e a vigilância constante sobre o entendimento e as motivações originais. O desde onde um alguém está narrando. Tudo o que foi dito ou escrito nas décadas de 30, 40, 50 e 60, só como exemplos mais próximos, pede por uma nova leitura desapaixonada e o mais isenta possível se é que tal capacidade nos é facultada. O tal value free dos cientistas sociais que buscam a pureza da interpretação.
*Marcos Schlemm
*Marcos Schlemm
Um comentário:
Fascinante a história da importância de contar histórias. E fascinante também é a relação entre o compreender e o sentir: compreender algo faz sentir bem, porque retira a insegurança de lidar com algo sem compreender; mas, para compreender, é preciso sentir, pois é o que valida o que observamos. Nosso sentir acaba sendo nossa história, pois só o que percebemos e sentimos passa a existir para nós. Por isso, para que tenhamos uma bela e rica história, vamos sentir coisas belas e ricas...
Parabéns pela iniciativa de fazer um locus de reflexão em seu blog.
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