terça-feira, 21 de abril de 2009

Medicina e Burocracia Mental

De todas as profissões hoje exercidas no mundo contemporaneo a que menos se coaduna com o pensamento burocrático (ou racional segundo o sociólogo alemão Max Weber), é a prática da medicina e assemelhadas. Weber ao detectar a mudança no tecido social que estava ocorrendo no final do Século 19, denominou o processo como sendo uma racionalização das relações, dos costumes e da prática humana. O termo racional no uso de Weber não se confunde com o conceito na psicologia ou no pensamento grego e na filosofia ocidental, como o modo de pensar lógico e conforme a padrões e racioncínios lógicos validados pelo senso comum. A racionalização a que Weber se referia é a submissão das relações humanas a regras e normas de conduta passíveis de serem observadas em contrato. Algo mais próximo das leis e regras fundadas na jurisprudencia. Weber, ao identificar tal processo, ao mesmo tempo em que via na sua adesão crescente e abrangente, uma forma eficiente de organizar a vida humana nos planos economico e social, via também (e alertava para isso nos seus tratados políticos) uma ameaça ao livre arbitrio e a conduta nas suas incontáveis nuances. Weber percebeu os riscos que tal racionalização (vulgo burocratização) representava para a ação e deliberação humanas. É espantoso constatar como a análise de Max Weber se mostrou acertada e quão atual e premente é sua chamada para a necessidade de recuperar o encantamento da vida comunitária diante desta racionalização ao extremo. Os praticantes da medicina que deveriam, acima de tudo, prezar pelas relações e o cuidado com o sentimento e necessidades de afeto humanas, burocratizam seu contato com o paciente (objeto primeiro e último do seu fazer) a ponto de deshumanizar a relação, criando regras e normas de conduta e procedimentos que fazem o sujeito paciente desaparecer na sua prática cotidiana. E seguem assim apesar de todas as evidências ( e novas) de que somos o que sentimos. Será que a neurociência, as vertentes mais recentes da psicologia que buscam por um resgate da dimensão humana (do pensar, do sentir e do agir) e aceitação do cultural , podem também resgatar o humano no profissional da medicina?
*Marcos Schlemm

2 comentários:

Paulo Moacir disse...

Grande, Marcos!
Parabéns pelo blog! Como eu não tenho tanta habilidade e conhecimentos para escrever com essa riqueza de argumentos, as minhas inspirações tem se resumido no Twitter.
Se você quiser participar: Twitter.com/pmoacir
Um forte abraço.
Estarei seguindo o seu blog.
Paulo

Vera Mattos disse...

Vivenciar ao vivo e a cores as refexões desse seu texto baseadas nas conclusões de Weber me mostram que efetivamente precisamos resgastar o ser humano no profissional médico. A medicina hoje parece ter se tornado uma máquina, não pessoas cuidando de pessoas.

Vera