domingo, 20 de setembro de 2009

To razzle dazzle them

Numa das cenas do musical e filme Chicago, o advogado que vai defender a ré e heroína do plot canta de braços dados com a própria a canção cuja letra sugere que o mundo quer e deve ser iludido e inebriado por nossas diatribes e imposturas. Ao entoar que temos de razzle dazzle as pessoas, ou seja, iludir, seduzir, ofuscar com o brilho das luzes e lantejoulas, faz eco com Aristoteles que na época argumentava que entre forma e conteúdo, a forma leva vantagem. O advogado, no caso, refere-se a algo mais, aliando a forma ao blefe, à prestidigitação e à mistificação. Vivemos num mundo de mistificadores e em nossa terrinha pátria, nunca esta qualidade esteve tão em voga e presente no nosso dia a dia. Parece que a ordem é: mistifiquem (razzle e dazzle) que a ignorância viceja mesmo e ninguém vai dar-se conta ou perceber a diferença. A falência dos meios formais de socialização educada e informada combinada à ausência de orientação familiar, faz de nosso cotidiano um show popular das tardes aborrecidas e pouco criativas de nossos programas na televisão, onde o escracho e o mau gosto são a regra. Crianças e jovens são motivadas a fazer parte deste razzle dazzle, constrangendo mestres escolares e fabricando um "Unterbürger" que desconhece suas obrigações e direitos como cidadão. Muito longe do Übermensch de Nietzsche, que clamava pelo surgimento de um ser vituososo e esclarecido, nosso neo-cidadão entende que seus direitos prevalecem sobre o de qualquer outro, praticando os excessos que em outras épocas seriam vistos como manifestações de indivíduos mal orientados e ainda sob a influência dos hormônios do crescimento. Este entendimento e postura está se transportando para dentro da vida pública, infestando as instituições políticas e compromentendo a convivência civilizada nas atividades profissionais e ambientes corporativos. Não sabendo o que é valor, em particular o valor da educação e conhecimento lapidado, não tem o respeito por aqueles que o cultivam e empreenderam parte da sua vida para conquistar entendimentos mais abrangentes ou profundos sobre como as coisas são e porque assim o são. Desprezam com ironia e recalque aqueles que buscam os caminhos do entendimento das coisas humanas e acreditam poder substituir a tudo com o razzle dazzle barulhento e ensurdecedor da ignorância e da mistificação. Lembro daquele poster que diz, if you think that education is expensive, try ignorance.
*Marcos Schlemm

6 comentários:

Carmona disse...

Achei muito bom o post. Até que podia ser um pouco mais leve, com menos palavras em alemão, mas de qualquer forma a frase que me fex pensar muito foi "mistifiquem (razzle e dazzle) que a ignorância viceja mesmo e ninguém vai dar-se conta ou perceber a diferença". Isso parece um retrato do comportamento de muitos e muitas hoje em dia. Agora vou aguardar que você sugira como resolver a parada...

mara disse...
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Anônimo disse...

Ingles pode? Este é um blog desaveço, não tem que nada, saber, ter ou fazer, só ser. O uso de termos assim em outra lingua surgem naturalmente no fazer, me diverte, e expressam melhor o sentido do que estou pretendendo dizer. Outro dia na transmissão do discurso do Obama pela BBS, um dos comentaristas britanicos, ao se referir ao sorriso de um dos parlamentares, valeu-se da palavra Schadenfreude, ou alegria derivada do infortúnio dos outros. Não tem tradução ou equivalente em portugues. Pode ser que provoque a curiosidade de buscar outras linguas, sei lá...

Anônimo disse...

Tem sim, esse blog "made in Brasil" com "esse" , tem que propor idéias e ideais daqui mesmo . A Alemanha , a Italia a Chechenia até tem Blogs ...então porque não criá-los por lá e também por lá ter um retorno satisfatório .
O que passa é a sensação de pseudo-superioridade nas coisas escritas e isso aqui não orna , destoa do foco principal . Por isso essa "provocação" na busca por outras linguas não é devida aqui , caso contrário téríamos as baixas nas matriculas no Phil Yung , no Goethe , Dante Aleghieri e tantos outros ...
Obama na BBS é só para "inglês" ver meu amigo .

"Bli vem du är"

Sônia Bório disse...

Fico surpresa ao constatar alguns comentários. Reflexões servem para estimular o entendimento. Em se tratando de uma realidade multi-facetada e crescentemente complexa, o entendimento, essencial obviamente, pode se tornar cansativo. Pensar cansa, ainda mais quando verdades conflitantes nos colocam num beco sem saída, ou aparentemente sem saída. Me entristece perceber que concepções separatistas façam parte desta realidade. As idéias não são de um lugar, de uma cidade, país ou nação. Retratam apenas a cultura. Qual cultura? A inevitável cultura globalizada. No clássico filme de ficção científica, "Blade Runner", o dialeto das ruas era uma mistura de línguas... é o nosso presente, menos charmoso, mas pleno de Reeboks, Nikes, Channel, Renault, Yundai, Prada, Sonny, Honda, Subaru, Swarovski, Tramontina, Mundial...

Marcos disse...

Me abstive de comentar o comentário anterior. esqueci na verdade. Ao reler hoje, pensei que o mesmo responde por si só a questão. Um tanto obliqua e fugidia (protegida do anonimato), não deixa claro o problema de seu postulante. Os antepassados vieram de qual rincão? Aprenderam esta língua européia conhecida como portuguesa onde? Os conhecimentos de que utiliza e a própria tecnologia provem de qual parte do Globo? Certamente não é de nossa taba, encalhada nas práticas primitivas da não civilizadade. Livre pensar significa ter o direito de expressar seu pensamento e sentimento. Conheci um guia no Pantanal fluente no Ingles. Autodidata e estudiosa das linguas. Um cara fantástico pois, na sua simplicidade, sabia do valor do intercâmbio cultural e da riqueza que a multiculturalidade traz. Paz e amém.