Somos seletivos na aceitação ou assimilação da mudança em nossas vidas. Para muitos, os ensinamentos recebidos de nossos pais e avós ou na escola são fixos e determinantes. Alheios aos pequenos avanços e constatações da ciência, confirmando ou contestando certos entendimentos e mitos, seguimos em frente com nossas convicções e verdades estabelecidas. Aquilo que as contradiz rejeitamos ou ironizamos. Quando o novo conhecimento concorda com nossas teorias em uso o acatamos e utilizamos. O que parece difícil assimilar é que as constatações da ciência tem mais implicações para o nosso cotidiano do que normalmente queremos imaginar. Mantermo-nos atualizados revendo nossas convicções seria deveras trabalhoso, implicando naquilo que se convencionou chamar de educação continuada. A educação necessária a ser levada em frente na vida adulta afora. A simples leitura de uma revista como a "Ciência Hoje" ou outra do gênero já nos traria uma quantidade de informações de difícil assimilação no dia a dia sempre atribulado com outros afazeres. Assim como levamos gerações incorporando nossas crenças e alimentando nossos mitos, outras tantas serão necessárias para reformulá-las e incorporar novos entendimentos. Assim também o que nos foi dito sobre Darwin, Adam Smith ou Mozart, pode estar obsoleto ou contado segundo a conveniência ideológica da época. Vemos e acreditamos naquilo que nossas teorias pessoais ou herdadas nos permitem ver e aceitar. Mudanças decorrem da reformulação destas. A evolução vem da compreensão destes fatos.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
domingo, 29 de novembro de 2009
Einstein não seria Einstein
Não deixa de ser curiosa nossa obsessão por procedimentos e formalidades. Einstein fosse vivo e almejasse seguir carreira de pesquisador ou professor universitário seria desqualificado sumariamente. Não teria 15 artigos científicos (sic) a publicar todos os anos fazendo-os constar da Plataforma Lattes. Seria excomungado da academia e aconselhado a tentar outra atividade na vida. E a humanidade deixaria de compreender melhor como tudo é como é e porque, pois Einstein estaria pilotando um inadequado automóvel servindo de taxista no Rio de Janeiro ao invés de cuidar da relatividade e a teoria que a explica. Pobre Einstein. Não teria lugar em nossas universidades que, de tão qualificadas, não tem registro de pensamento autonomo ou de contribuição significativa no simpósio permanente de idéias que se constitui no sistema de produção de conhecimento científico séculos afora. Mas estas mesmas universidades co-certificam o documento fornecido pelas instituições equivalentes de além mar àqueles brasileiros que lá ousaram se graduar em mestrados e doutorados. As de lá abrigam vários Premios Nobel nas diferentes áreas do conhecimento humano. São as coisas dos nossos tristes trópicos, valendo-me de designação dada a nosso rincão pátrio por um dos fundadores da USP, o frances Claude Lévi-Strauss falecido recentemente em Paris. Conta-se que foi durante os idos tempos em que viveu conosco que Lévi-Strauss desenvolveu seu pendor de antropólogo observando os selvícolas nativos em nossas matas e florestas. Como e quando teremos nosso Einstein ou um Nobel em ilusionismo político e casuísmo executivo? Temos talento para esta prática. E a teorização de como e porque se faz o que se faz? Bem, quem sabe no próximo mandato.
*Marcos Schlemm
domingo, 20 de setembro de 2009
To razzle dazzle them
Numa das cenas do musical e filme Chicago, o advogado que vai defender a ré e heroína do plot canta de braços dados com a própria a canção cuja letra sugere que o mundo quer e deve ser iludido e inebriado por nossas diatribes e imposturas. Ao entoar que temos de razzle dazzle as pessoas, ou seja, iludir, seduzir, ofuscar com o brilho das luzes e lantejoulas, faz eco com Aristoteles que na época argumentava que entre forma e conteúdo, a forma leva vantagem. O advogado, no caso, refere-se a algo mais, aliando a forma ao blefe, à prestidigitação e à mistificação. Vivemos num mundo de mistificadores e em nossa terrinha pátria, nunca esta qualidade esteve tão em voga e presente no nosso dia a dia. Parece que a ordem é: mistifiquem (razzle e dazzle) que a ignorância viceja mesmo e ninguém vai dar-se conta ou perceber a diferença. A falência dos meios formais de socialização educada e informada combinada à ausência de orientação familiar, faz de nosso cotidiano um show popular das tardes aborrecidas e pouco criativas de nossos programas na televisão, onde o escracho e o mau gosto são a regra. Crianças e jovens são motivadas a fazer parte deste razzle dazzle, constrangendo mestres escolares e fabricando um "Unterbürger" que desconhece suas obrigações e direitos como cidadão. Muito longe do Übermensch de Nietzsche, que clamava pelo surgimento de um ser vituososo e esclarecido, nosso neo-cidadão entende que seus direitos prevalecem sobre o de qualquer outro, praticando os excessos que em outras épocas seriam vistos como manifestações de indivíduos mal orientados e ainda sob a influência dos hormônios do crescimento. Este entendimento e postura está se transportando para dentro da vida pública, infestando as instituições políticas e compromentendo a convivência civilizada nas atividades profissionais e ambientes corporativos. Não sabendo o que é valor, em particular o valor da educação e conhecimento lapidado, não tem o respeito por aqueles que o cultivam e empreenderam parte da sua vida para conquistar entendimentos mais abrangentes ou profundos sobre como as coisas são e porque assim o são. Desprezam com ironia e recalque aqueles que buscam os caminhos do entendimento das coisas humanas e acreditam poder substituir a tudo com o razzle dazzle barulhento e ensurdecedor da ignorância e da mistificação. Lembro daquele poster que diz, if you think that education is expensive, try ignorance.
*Marcos Schlemm
*Marcos Schlemm
domingo, 2 de agosto de 2009
A vida como narração ou quem imita quem na realidade?
De há muito estamos em busca de compreender. Outros procuram o sentir. Ambas as buscas anseiam por entendimento. A predisposição para a narrativa, para algo parecido com o que Aristoteles chamou de mimesis, parece inerente ao humano. A reconstrução do enredo de como teria sido ou é. A interpretação da vida em ação. E, à partir daí, evidentemente, tudo é possível. Nada saberíamos do passado se não fosse esta capacidade humana de contar a história ( inclusive sendo o sujeito da própria). Uma vez mais Humberto Maturana e Ximena Dávilla vem a mente: tudo o que é observado é observado por alguém. Tudo o que é dito, é dito por alguém. Um outro alguém, pode, portanto, observar algo distinto e contar uma história muito diferente daquela que estiver sendo favorecida (a chamada situação). Acrescentando-se aí o efeito halo, e pronto, temos heróis e anti-heróis construídos à nossa vontade e gosto ou preferência (e pequenas vinganças). Constroem-se marcas de Caín com o diligente auxilio da tecnologia da noite para o dia. O pessoal da mídia entende bem desse contexto. E o das organizações, particularmente naquelas onde o jogo e os interesses políticos vivem à flor da pele também o sabem. Nem sempre o identificam, desconhecem a teoria, mas a praticam com empenho e espantosa crueldade. Sendo a narrativa o elemento formador do entendimento coletivo, da identidade de um povo, de uma nação, podemos imaginar o efeito que boas histórias acerca do como somos o que ficamos, e o que a escassez de boas narrativas pode fazer por uma sociedade, seus valores e sua cultura. Somos miméticos, ponto. Essa dimensão interpretativa é o que impele, obriga até, ao permante estudo e a vigilância constante sobre o entendimento e as motivações originais. O desde onde um alguém está narrando. Tudo o que foi dito ou escrito nas décadas de 30, 40, 50 e 60, só como exemplos mais próximos, pede por uma nova leitura desapaixonada e o mais isenta possível se é que tal capacidade nos é facultada. O tal value free dos cientistas sociais que buscam a pureza da interpretação.
*Marcos Schlemm
*Marcos Schlemm
domingo, 12 de julho de 2009
O Universo é aqui: Estou com o Kubrick
Nunca me entusiasmei muito com enredos que buscam nos confins do desconhecido espaço pistas para a compreensão do humano em nós. A ficção científica produziu coisas interessantes e levantou hipóteses plausíveis sobre o origem de tudo o mais. O avanço científico não pode ser delimitado por crenças e convicções toscas sobre o como e o porque de tudo. Para o meu comsumo pessoal, entretando, a cada novo dia ou recomeço, me espanto ainda como muitos passageiros e tripulantes desta nossa nave espacial Terra ainda vivem alheios às constatações sobre nosso modo de operar o cotidiano, às pequenas evoluções do pensar e agir humanos. O verdadeiro significado do que seja o humano em nós. Para mim, o espaço mais instigante neste estágio da existência, é o espaço que costumamos chamar "mental." Aqui entra Kubrick - Uma Odisséia no Espaço - , como êle, também acho perda de tempo tentar decifrar seres estrangeiros a este planeta, quando mal conseguimos decifrar o que move nossa "inteligência" . Se alguns avançaram nesta tentativa, a grande maioria parece contentar-se com o que a novela das 20 horas tem a nos contar. Fiquei gratamente surpreso e enternecido com alguns dos comentários sobre minha reflexão anterior, postados e outros encaminhados diretamente a meu email . Grato por todos. O que me chamou a atenção é a diversidade de perspectivas e leituras que um mesmo texto pode gerar. Como decifrar a mente humana é uma tarefa que está longe de ser concluída. Nossos entendimentos, sentimentos e observações por mais próximos que possamos estar ou ser, desencontram-se na tradução. É o Lost in Translation com a Scarlett Johansson. Interpretamos conforme nossos enredos, referências, percepções e interesses momentaneos. Os sentimentos e experiêcias vividas. Percebo o olhar de Humberto Maturana sobre o observar e o observador. Tudo o que é observado é observado por alguém. Tudo o que é dito é dito por alguém. E este alguém pode ser você mesmo.
*Marcos Schlemm
domingo, 5 de julho de 2009
Há tanto tempo que eu te amo ou, sentir e julgar, eis a questão.
Fui descontrair depois de uma semana intensa e turbulenta. O filme, Há tanto tempo que te amo (Il y a long temps que je t'aime), com a magnífica Kristin Scott Thomas, dirigida por Philippe Claudel, coloca em questão o pré-julgamento. Comovido e curtindo a chanson (simples e encantadora) ao final dos créditos, aguardei as poucas pessoas que foram à sessão das 18:30 h no sábado sair e secar as lágrimas incontidas que haviam escorido pela face. Motivos? Diversos. Expectativas frustradas quem sabe. A dureza de alguns e a amabilidade de outros. A inconsistência com que se é levado a sobreviver. Quão insólita é a vida talvez. Incompreensível com certeza. A bela retratação de uma família "normal" em seu cotidiano. Design tem a ver com isso? Tem. Inovação? Sim. Estratégia? Total. Como desenhar nossa vida com leveza e contentamento, nossos relacionamentos, nossos artefatos, nossas organizações, a vida em equipe (vivemos mais tempo com elas do que com quem procuramos manter relações afetivas), sem um design que conduza e insinue o caminho? As armadilhas e os cul de sac sómente poderão ser evitados se o design for inovador, criativo, fugindo do padrão habitual das relações, criando algo que torne esta jornada mais tolerável e animada. E para isso, tendo concebido o protótipo do design inspirador, devemos pensar na estratégia que vai nos permitir singrar com maestria e leveza os oceanos e tormentas da vida. Et voilá!! C'est çá! Simples não? Basta inspiração e a determinação para seguir esta simples fórmula. Mas, o que acontece afinal? Ficamos ensaiando na cegueira? Distraídos pelo cotidiano que nos oferece justificativas e explicações do porque? Ou será que não entendemos ou não observamos com clareza como fazemos o que fazemos e ficamos andando em roda enquanto La nave vá? ..... Reflexões apenas, tão somente reflexões cotidianas.
*Marcos Schlemm
*Marcos Schlemm
terça-feira, 21 de abril de 2009
Medicina e Burocracia Mental
De todas as profissões hoje exercidas no mundo contemporaneo a que menos se coaduna com o pensamento burocrático (ou racional segundo o sociólogo alemão Max Weber), é a prática da medicina e assemelhadas. Weber ao detectar a mudança no tecido social que estava ocorrendo no final do Século 19, denominou o processo como sendo uma racionalização das relações, dos costumes e da prática humana. O termo racional no uso de Weber não se confunde com o conceito na psicologia ou no pensamento grego e na filosofia ocidental, como o modo de pensar lógico e conforme a padrões e racioncínios lógicos validados pelo senso comum. A racionalização a que Weber se referia é a submissão das relações humanas a regras e normas de conduta passíveis de serem observadas em contrato. Algo mais próximo das leis e regras fundadas na jurisprudencia. Weber, ao identificar tal processo, ao mesmo tempo em que via na sua adesão crescente e abrangente, uma forma eficiente de organizar a vida humana nos planos economico e social, via também (e alertava para isso nos seus tratados políticos) uma ameaça ao livre arbitrio e a conduta nas suas incontáveis nuances. Weber percebeu os riscos que tal racionalização (vulgo burocratização) representava para a ação e deliberação humanas. É espantoso constatar como a análise de Max Weber se mostrou acertada e quão atual e premente é sua chamada para a necessidade de recuperar o encantamento da vida comunitária diante desta racionalização ao extremo. Os praticantes da medicina que deveriam, acima de tudo, prezar pelas relações e o cuidado com o sentimento e necessidades de afeto humanas, burocratizam seu contato com o paciente (objeto primeiro e último do seu fazer) a ponto de deshumanizar a relação, criando regras e normas de conduta e procedimentos que fazem o sujeito paciente desaparecer na sua prática cotidiana. E seguem assim apesar de todas as evidências ( e novas) de que somos o que sentimos. Será que a neurociência, as vertentes mais recentes da psicologia que buscam por um resgate da dimensão humana (do pensar, do sentir e do agir) e aceitação do cultural , podem também resgatar o humano no profissional da medicina?
*Marcos Schlemm
*Marcos Schlemm
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